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terça-feira, 19 de outubro de 2010

O jornalismo de má fé

Por Marana

O que você acha deste título?

Matéria publicado pelo O Estado de S.Paulo em 08.10.2010

Qualquer leitor pensaria que esse montante de empresas foi privatizado entre 2000 e 2010, correto?


Errado. Ao chegar ao quarto parágrafo, damo-nos conta de que o período analisado é entre 1991 e 2001:



Portanto, durante os governos Itamar Franco e, sobretudo, Fernando Henrique Cardoso. Pois é, a opinião do Conselho Editorial do Estadão não se limita aos editoriais. O jornal declarou apoio ao Serra e demitiu a colunista Maria Rita Kehl por falar bem do Bolsa-Família.


Apesar de no título não haver a palavra "últimos" (dez anos), ele nos induz a erro. Se faltou espaço para colocar o período da pesquisa, essencial neste caso, o jornalista poderia ter esclarecido na linha fina (aquela que vem logo abaixo do título). Mas não o fez.

Desdobramento - 1
Escrevi um e-mail ao jornalista Fernando Dantas, autor da matéria. Veja a resposta dele:


Prezada Marana, se você ler a matéria com atenção, verá que ela é informativa, e que não parte do princípio que a privatização é algo negativo. Pelo contrário, há entrevistados no corpo da matéria que consideram que a privatização foi positiva para o País. Sendo assim, não faria nenhum sentido querer induzir o leitor a pensar que a privatização foi nesse ou naquele período, o que foi feita por esse ou aquele presidente.
Atenciosamente,
Fernando Dantas


Minha resposta:

Não se trata de induzir o leitor contra um ou outro presidente, mas de informar. Quem induziu a erro foi o texto. Saber se a privatização foi positiva ou negativa é uma conclusão a qual deve chegar o leitor. Se o foco fosse mostrar os pontos positivos da privatização, como vemos a partir do 4º parágrafo, o título poderia ser algo como "Sem privatizações, dívida pública seria 60% do PIB" ou "Estatais privatizadas são mais lucrativas, mostra estudo" etc. Porém, o título apela para a quantidade, não qualidade.

Saber quando esse processo se deu é importante, e não apenas para um historiador: também para o cidadão-leitor. Só temos acesso a essa informação na metade do texto. Como a matéria foi publicada em época eleitoral, em que o tema da privatização volta à tona, fazer uma edição desse tipo soa ainda mais grosseiro.

Atenciosamente,
Marana


Desdobramento -2

O mesmo texto foi publicado integralmente pelo diário O Sul, de 65 mil exemplares, editado em Porto Alegre pela Rede Pampa de Comunicação. Ao contatar a editora de Economia, tivemos a seguinte conversa:

- O título induz o leitor a acreditar que essas privatizações ocorreram principalmente no atual governo, mas no 4º parágrafo aparece a informação de que o período é entre 1991 e 2001, portanto, antes do Lula.

- Deixei assim mesmo porque o Lula também privatizou...

- O atual governo privatizou dois bancos, no Maranhão e no Ceará, isso está longe de ser 100 empresas. 

- Ué, mas ele privatizou, não privatizou?

- Sim, mas a pesquisa citada na matéria não se refere ao período que ele governou.

Sem resposta.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Um presidente (e uma primeira-dama) diferente

Por Avani

Sem falar no sucesso do governo, Lula é um presidente diferente em muitos aspectos. E é sobre uma diferença especial, que o torna tão singular, que quero falar.

Dizer como é inteligente, competente, talentoso, bom negociador e gestor, sensível, didático, do domínio que tem da linguagem, expressando-se com clareza, criando metáforas, comparações inusitadas, alegorias insólitas, isso todo mundo sabe, principalmente os seus adversários.

O que eu quero falar é que pelo fato de ele ter vindo do que convencionou-se chamar de "povo", ou seja, das classes menos favorecidas, a base da pirâmide social, que até há pouco formavam o grosso da população brasileira*, pelo fato de Lula reconhecer-se assim e ser um representante legítimo dessa classe, ele o é da forma mais natural possível. Essa classe que ele representa é tão diferente dos outros governantes - os quais identidade nenhuma ou quase nenhuma têm com a maior parte da população - que eu fico sempre admirada quando essa diferença aponta com tanta naturalidade.  

A primeira-dama
Diferentemente das esposas dos governantes que não partiram (ou não se alinharam na defesa de) dos mais humildes, e que carregam o sobrenome do marido como atributo, cargo e passaporte, Marisa Letícia é simplesmente Marisa Letícia. Ao contrário de Rosana Collor, Marli Sarney, Lu Alckimim, Mônica Serra, que trazem a tiracolo o sobrenome e se fazem famosas por ele, Marisa Letícia não: é simplesmente Marisa Letícia, ou ainda Marisa. Com toda naturalidade. E todo mundo sabe quem é.

Em todos os lugares em que Lula se apresenta, ela está junto: companheira, militante, discreta. E simples. Essa simplicidade não apenas faz de Lula um presidente diferente, como também é resultado da postura diferente do casal perante a nação brasileira: ele é o Lula, ela a Marisa.

* Com a ascensão de 31 milhões de brasileiros à classe C, o que antes era um triângulo aos poucos se transforma em uma "barriga", na qual o maior contingente populacional se encontra no meio.

sábado, 16 de outubro de 2010

Parentes e serpentes*

Por Avani

Logo após a vitória da revolução cubana e da entrada triunfal em Havana dos guerrilheiros da Sierra Maestra - em que poucas horas antes ocorreu a espetacular fuga do presidente-lacaio cubano, Fulgêncio Batista, para os Estados Unidos -  o argentino Che Guevara recebeu a cidadania cubana e foi alçado ao cargo de Ministro de Estado.

Nesse tempo, devido à sua popularidade e ao sucesso da revolução, ele recebeu uma carta de uma argentina que se dizia chamar também Guevara, e lhe perguntava se por acaso eles não seriam parentes.
Che respondeu, mais ou menos assim: “Se você luta contra o imperialismo, contra a exploração do homem pelo homem e por um mundo melhor para todos, então somos parentes.”

Lembro dessas palavras como um reconforto àqueles cujos parentes de sangue votarão no Serra, um candidato que pode comprometer toda a luta por um país melhor, com crescimento econômico, desenvolvimento e distribuição de renda.

* Título em homenagem ao filme do cineasta italiano Mauro Monicelli.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Universidade para todos

Por Avani
Em 2010 formaram-se os primeiros 230 médicos bolsistas do Prouni 


    O Programa Universidade para Todos busca a inserção social, e por meio dele, o aluno egresso da escola pública - ou escola particular, desde que tenha sido bolsista - pode prestar vestibular para as universidades e faculdades particulares conveniadas com o governo federal. Utiliza-se como forma de ingresso a nota do ENEM somada à do vestibular dessas unidades de ensino. Mas não basta isso: é necessário também que o aluno se enquadre em determinada faixa econômica familiar, de até 1,5 salários mínimos por pessoa.

   O Prouni não dá dinheiro na mão de ninguém, dá vagas para a educação superior. Muitas vagas estavam ociosas em univesidades privadas devido a desistências e inadimplências de alunos, e com o Prouni essas vagas foram reativadas, beneficiando a faculdade e o aluno de baixa renda familiar. Podem também concorrer às vagas do Prouni portadores de deficiência e professores da rede pública de ensino básico para cursos de licenciatura, normal superior ou pedagogia. No caso desse professor a renda familiar por pessoa não é considerada.

    Seria muito melhor que essas vagas do Prouni fossem abertas nas universidades públicas. No entanto, para se abrir campi universitários os investimentos são muitos: terreno, construção, equipamentos, funcionários, contratação de professores, etc. O Brasil tem pressa em crescer, e aguardar esses investimentos e a construção desses campi demora, porque as empresas públicas tem procedimentos específicos de gestão do dinheiro (licitações públicas  etc.). Por isso, o Prouni é um programa social de emergência, para atender à enorme demanda social por vagas no ensino superior. Mas, mesmo assim, o governo federal abriu 14 novos campi federais, ou seja, atuou em duas frentes simultaneamente: abrindo novas vagas em universidades públicas e utilizando as vagas ociosas da rede privada, obrigando as faculdades particulares a darem contrapartida a isenções fiscais através do Prouni.

    Aqueles que são contra o Prouni dizem que esse programa beneficia, sim, mas as faculdades privadas. É claro que as faculdades privadas são beneficiadas, elas não trabalham de graça. Mas elas não são beneficiadas com privilégios, como querem fazer crer os inimigos do Prouni, mas são beneficiadas com isenção fiscal pela prestação de serviços educacionais no Prouni. Com o Prouni todos ganham: os alunos, as faculdades e a sociedade que terá um contingente de jovens formados e melhor preparados para o mercado de trabalho.

    O DEM é contra o Prouni, e como um bom de testa-de-ferro do PSDB, entrou com uma Ação Direta de Inconstitucionalidade contra o Prouni, pedindo sua extinção. Isso vem mostrar claramente a insensibilidade social desses políticos que não querem que o Brasil cresça e seja respeitado internacionalmente, e nem querem que a população pobre do país tenha acesso à educação superior, mantendo-se na eterna ignorância para servir de vassalos aos interesses espúrios da classe dominante.

    São 14 novos campi universitários criados pelo Governo Lula, e são 700.000 vagas no Prouni. Isso não é pouca coisa, pois somente no Estado de São Paulo há 90 mil vagas distribuídas em todas as Universidades e Faculdades públicas, contra 150.000 do Prouni. Esses dados mostram inequivocamente a grande sensibilidade do Presidente Lula que criou esse programa de inserção social dos mais importantes, justamente ele que nem faculdade tem. Isso é uma lição de governança. No governo FHC foi aprovada a lei que obriga o professor da escola básica a ter Pedagogia, mas não foi criada uma única vaga sequer para esse professor se qualificar, cumprir a lei, e manter o emprego. Coube a Lula fazer o Prouni também para qualificar o professor do ensino básico deixado ao deus-dará por FHC.

Eu não tenho a menor dúvida de que se Lula não conseguir fazer seu sucessor para continuar com o aperfeiçoamento, aprofundamento e amplitude dos programas sociais de seu governo, será o caos para a educação nacional, pois o primeiro programa de inserção social que irá para o espaço será o Prouni. A operação de difamação e de destruição da candidatura Dilma Roussef envolve grandes interesses políticos e econômicos, passando pelo pré-sal e pela asfixia de outros governos progressistas na América Latina.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Marina... você se pintou?

Por Maurício Abdalla
Professor de filosofia da UFES



 “Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo.
Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?
Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.

Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais
espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido.Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.

Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.

Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.

“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.

Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.

domingo, 10 de outubro de 2010

Apenas mérito pessoal?

Por Avani

Algumas pessoas acreditam que de alguma forma suas vidas melhoraram  muito nos últimos 8 anos graças aos seus esforços pessoais;  que conseguiram fazer algum tipo de poupança graças ao seu espírito econômico; que conseguiram comprar bens de consumo que antes não podiam comprar, e isso igualmente graças aos seus próprios esforços e economias; que não lhes faltaram empregos,  graças à sua sorte e competência; que tiveram acesso à universidade pública graças somente ao seu bom desempenho ou obtiveram bolsa em universidade particular pela mesma razão; que puderam desfrutar de bens culturais, lazer e viagens graças unicamente aos seus esforços pessoais.

Ou seja, há muitas pessoas que tiveram melhor qualidade de vida nos últimos 8 anos e adquiriram bens, materiais e imateriais, e desfrutam desses bens, e acreditam que isso tudo se deve exclusivamente ao seu esforços, sorte, competência e luta pessoais. Essas pessoas acreditam que nenhum impacto tiveram sobre suas vidas questões como: a estabilidade econômica, as reservas internacionais, o pagamento da dívida com o FMI, os 2.500.000 novos empregos só em 2010, as 700.000 vagas no Prouni, os 14 novos campi federais, as 204 escolas técnicas, as mais de 1.200 ações da Polícia Federal para combater a corrupção,  o respeito que o Brasil conquistou na comunidade internacional, passar ao largo da crise de 2008, as 32 milhões de pessoas que ascenderam à classe C, as 11 milhões de famílias que saíram da linha da miséria absoluta, a ascensão da Petrobrás à 5ª maior empresa do mundo, o pré-sal, os biocombustíveis, a liderança brasileira em grandes questões internacionais, os acordos técnico-científicos e comerciais com os países africanos, só para citar alguns poucos exemplos de que me lembro de cabeça.

Há pessoas que acreditam qu passam incólumes às conquistas sociais, que passam incólumes aos números da Economia, que passam incólumes à crise econômica que assola Europa e Estados Unidos desde 2008. Se você não pensa assim, eu peço o seu voto para ex-ministra Dilma Rousseff.